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A intervençao da psicanálise no campo da saúde mental

Autor:

Julio Cesar de Oliveira Nicodemos: psicólogo formado pela Universidade Federal Fluminense e residente de saúde mental na cidade de Niterói (RJ, Brasil).

Para que possamos situar a função da psicanálise no campo da saúde mental, precisamos nos deter naquilo que Lacan nos aponta em seu texto “Psicoanalisis y Medicina” (1985), quando fala do lugar extraterritorial que a psicanálise se encontra diante o saber médico. Este saber é atravessado por aquilo que entendemos como a realidade das coisas, como se elas já estivessem já dadas através da produção de uma realidade, que na atualidade é descrita como científica. Vale destacar que tal saber médico é o mesmo que rege a vida dos sujeitos em todos os seus aspectos, inclusive formando conclusões políticas que atravessarão nossas instituições de saúde mental e que teoricamente nos garantirá um lugar de intervenção legal.

Mas será que este lugar regido pela legalidade política, que parte deste saber descritivo da realidade, que aqui chamaremos de senso comum, nos autoriza enquanto um fazer clínico que visa um sujeito que não obedece as diretrizes dessa realidade das coisas, tendo sua própria lógica? O campo do senso comum é aquele que também nos atravessa, que nos marca com ideais e que homogeneíza os modos de existência. É deste lugar que a medicina irá encontrar seu lugar de intervenção. A demanda dos sujeitos na atualidade é condicionada a partir disso e é a partir desse mesmo lugar que o ato médico tem se efetivado. Não é raro, cada vez mais, indivíduos chegarem nos ambulatórios de saúde mental reivindicando algum objeto (fármaco) que supostamente cessará sua dimensão de mal-estar.

O lugar do médico, enquanto autoridade que trata, e deste sujeito que reivindica seu objeto, não possui dessimetria alguma, não há um endereçamento de algo que faça algum enigma ao sujeito, há uma abolição do lugar da transferência e de uma lógica particular do sujeito. Tudo já esta devidamente descrito e ofertado no campo da realidade por um saber, e isso terá conseqüências importantes na clínica. A dimensão da palavra é colocada em derrisão e o sujeito é homologado pelo médico enquanto um objeto no momento em que ele responde a essa demanda: como se $ = a .

A psicanálise tentará produzir algo, a partir de um trabalho com o discurso, que escape a esta derrisão que o sujeito se encontra, como um objeto. A clínica, segundo Czermak (2004), tentará garantir um lugar de escuta destes sujeitos, ou seja, um lugar para o sujeito, onde a palavra tenha um valor que não se reduza a esse objeto demandado. É neste ponto que se faz importante pensar o lugar da psicanálise, um lugar extraterreno a medicina. Nossa aposta é que só a partir daí conseguiremos um tratar, que escape a alienação que é mortífera ao sujeito. O autor, em seu texto, utilizará o exemplo de jovens toxicômanos e destaca o lugar que eles ocupam no laço social – se é que estão no laço –, onde não há algo que marque uma diferença de lugares, algo da dimensão do sexual, todos estão reduzidos a uma fraternidade homogeneizadora, efeito de uma cultura regida pela escrita científica conjugada ao direito e ao mercado global.

Para finalizarmos este trabalho, precisamos retomar os ensinamentos de Freud, já que por muitas vezes nos esquecemos de suas contribuições para o campo da clínica. Freud em suas “Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise” (1916-1917) já nos apontava a função da psicanálise enquanto uma intervenção discursiva, que não se opõe a isso que chamamos de discurso comum mas que intervém sobre ele. Sendo assim, não somos defensores de uma saber psicanalítico em oposição a uma psiquiatria científica, caso isso ocorra, nossas intervenções partirão desde mesmo lugar que desqualifica o sujeito, desconsiderando uma outra “realidade” que é a do inconsciente e que este saber não já está dado, mas sim um saber que caberá somente ao sujeito construir. Texto produzido durante o curso de especialização em Psicanálise e Saúde Mental (12 de julho de 2008)

Referências Bibliográficas:

Czermak, M. O Fim do Texto? in: Revista Tempo Freudiano : A clínica psicanalítica e as novas formas de gozo. 2004. Freud, S. Psicanálise e Psiquiatria in: Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise. Vol. XVI (1916-1917), Imago – edição eletrônica.

Freud, S. Terapia Analítica in: Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise. Vol. XVI (1916-1917), Imago – edição eletrônica. Lacan, J. Psicoanalisis y Medicina in: Intervenciones y Textos. Ediciones Manantial , S.R.L. 1985. Buenos Aires.