O sistema de saúde de Buenos Aires, por um brasileiro
Julio Nicodemos
Não há uma rede de comunicação que possibilite uma continuidade de tratamento.
Dirigindo-me para o Hospital Neuropsiquiatrico Moyano, além dos diversos pavilhões com nomes de psiquiatras clássicos como Esquirol, Pinel, Griessinger, dentre outros, encontro outras especialidades médicas mescladas a psiquiatria dentro da instituição. Neste momento lembro-me das instituições totais do nosso passado onde a vida era gerida em todos os seus aspectos dentro do próprio manicômio.
Acompanhado de meus companheiros residentes, vamos ao pátio interno do hospital. Percebo alguns olhares desconfiados, não fomos recebidos por ninguém mas notei a presença de alguns médicos. O lugar era bastante amplo e arborizado. Muitas pacientes circulavam pela área verde. Das várias que cruzamos, somente uma delas nos dirigiu a palavra dizendo: “Hola! Buenos días!” Minutos depois recebo outra saudação e percebo que é a mesma paciente que ficava dando voltas e voltas no pátio, como um movimento automatizado. A pergunta que se colocava era quem recolhia os dizeres da loucura, como a fala do louco poderia ser escutada por um outro que o auxiliasse na invenção de sua existência no campo da linguagem?
A proposta de tratar fora das instituições manicomiais demanda um trabalho onde o sujeito possa inventar uma outra instituição, fora daquele espaço já constituído. Para tanto, exige a existência de técnicos dispostos a formar vínculos, desejar estar juntos nesse acompanhamento, além de equipes que trabalhem juntas nessa mesma direção
Voltando para o Brasil, lembro de cada conversa, seja nos cafés, nas praças ou mesmo nas ruas, observei um povo bastante atento à política e indignado com as desigualdades que lhes cercam. A saúde mental no meio disso tudo se mostra como um ponto de esquecimento diante de todo pensamento político desse povo. A questão que fica pra mim é: quando Brasil e Argentina tomaram caminhos diferentes em suas propostas de tratamento dos loucos, falo principalmente de Buenos Aires como centro econômico do país?
Andando pelas ruas da capital, percebi uma cidade bastante preservada em sua arquitetura, bem como o cuidado com seu lixo urbano – não se vê amontoados de sujeira nas calçadas como nas ruas do Rio de Janeiro. Junto disso, notei também que não circulam muitos loucos pelas ruas, a população de rua vem aumentando, mas ainda não se compara com a das cidades brasileiras. Diante disso, me pergunto o que nossos hermanos têm feito com aquilo que eles entendem como resto, sem valor diante do capital? Estão nos depósitos?